Prosas às Quartas

 

Prosas às Quartas

 

Curioso título para cento e poucas páginas de carinho e criatividade. “Prosas às Quartas”, é crónica, conto e diário, sem ser nada disto ao mesmo tempo. Uma delícia a cinco mãos, com coordenação de uma das nossas grandes referências literárias da actualidade, Paula de Sousa Lima, aqui no papel de “Professora e Orientadora” das suas “Meninas”, Carla Couto, Isabel Silva, Margarida Viveiros, Sofia Estrela e Vera Cymbron.

Edição Letras LAVAdas, uma sugestiva e bem conseguida capa de Vera Cymbron, este “Prosas às Quartas” lê-se com encanto e leveza. Atrevo-me a dizer que é um belo “livro de Verão”.

Nasce de um Curso de Escrita Criativa que decorreu na Escola das Laranjeiras neste ano lectivo 2022/2023, mas, como diz a sua coordenadora, é muito mais do que isto: “mais do que um conjunto de experiências desenvolvidas nas sessões do Curso de Escrita Criativa, (é) uma expressã0 do talento de cinco mulheres muito especiais, a Carla, a Isabel, a Margarida, a Sofia e a Vera, que tive o gosto e o privilégio de acompanhar ao longo do ano letivo supramencionado”.

São vinte textos, quatro por cada uma das participantes, com uma linha comum, a tal linha capaz de fazer unidade em tanta diferença de estilos e ritmos de escrita: é um livro em que se respira humanismo e uma sede de liberdade que nos atrai.

Como bem escreve Paula de Sousa Lima, “elas… foram sempre capazes de dar coesão aos seus textos, os quais apresentam linhas narrativas “com princípio, meio e fim”, tratando-se de micronarrativas ou de narrativas de curta dimensão ou, ainda, de contos — género literário que foi trabalhado no momento final do Curso de Escrita Criativa. Se os estilos destas cinco mulheres são dissemelhantes, ora de teor mais lírico, ora marcados pela “corrida”, como ansiosa, da narração, ora de natureza mais descritiva ou reflexiva, também o são os temas que elas privilegiam, uns tendencialmente realistas, outros tocados pelo delírio da imaginação, outros, ainda, convocando o maravilhoso — e, assim, temos aqui exposto um rico manancial de experiências humanas”.

È curioso notar que as cinco participantes vêm de meios completamente diferentes, cada uma com as suas experiências pessoais e profissionais. Carla Couto é de Ponta Delgada nasceu a 12 de junho de 1971, e é professora de Matemática. Estudou na Universidade dos Açores, sendo licenciada em Matemática (via ensino). Dedica-se a aprofundar temas de desenvolvimento pessoal, com especial destaque para as práticas meditativas. A necessidade de contribuir para o desenvolvimento holístico de cada criança de uma forma mais efetiva levou-a a abraçar o projeto de inovação pedagógica onde trabalha no presente momento. Tem especial gosto pela leitura e pelo mar. Magnífico aquele seu conto “Pequenos Nadas”, com aquele Menino a precisar de um vestido de uma caminha… E como me senti interpelado pelos contrastes existenciais  patentes em “Esquecimento”, pois, realmente “não há vazio maior que o provocado pelo desamor, uma espécie de buraco que toma conta de todas as entranhas, não apenas do coração, como alguns levianamente dizem, deixando um fosso imenso por dentro, pelo qual o próprio ser se esvai”.

Da Ilha Terceira, mais concretamente da cidade de Angra chega-nos Isabel Silva, nascida a 31 de maio de 1969, professora de Português do 3º Ciclo e do Ensino Secundário. Estudou na Universidade dos Açores, sendo licenciada em ensino de Português-Francês. Dedica-se ao lazer com alguma facilidade, seja através da música, da leitura ou de uma caminhada, tendo, nos últimos tempos, adquirido especial gosto por escrevinhar e meditar. Espectacular aquele conto “A sandes pacificadora”, com sentido de humor notável e ironia perfeita: “Se fosse meu filho… A mãe resolveu que não podia desiludir aquele público, que ele merecia um final bonito e simpático como o local onde se encontravam. Também pensou na sua imagem de mãe moderna, terna e compreensiva”. Igualmente intrigante a figura do “Menino da Mamã”, a revelar um bom conhecimento e tratamento literário de um complicado misto de emoções.

Outra das “Prosadoras às Quartas” é Margarida Viveiros nascida em Ponta Delgada, a 15 de junho de 1968, e professora de Português. Estudou na Universidade dos Açores, onde obteve uma licenciatura em Português/Inglês (via ensino), terminada em 1993, e fez um mestrado em Supervisão, pela Universidade de Aveiro, em colaboração com a Universidade dos Açores, concluído no ano 2000. Para além de dar aulas, gosta de ler e de viajar, apreciando a gastronomia e o património natural e cultural. Nunca me vou esquecer da comovente nota “Koby”, reveladora de fina sensibilidade para com os animais… Naquela despedida também eu senti aquele “o mar que nos habita subiu numa onda lenta até transbordar pelos nossos olhos e pingar pelas nossas narinas”. E do patudo Koby para o “papagaio de Virgínia Wolf”, vai o mesmo afecto, desta feita regado de humor e imprevisto… Um papagaio assim não se vende nem se dá…

Sofia Estrela, a mais jovem das participantes, nasceu na Ribeira Grande, a 19 de agosto de 2003, e frequenta, atualmente, o 2º ano de História na Universidade dos Açores. Dedica-se à música, tocando clarinete, aos videojogos e à escrita, tendo especial gosto por astronomia e pelo mar. E esta apetência pela astromomia transborda magnificamente em “As três Marias” que, “como são conhecidas, correspondem às três estrelas bem alinhas que se destacam da cintura da constelação de Órion. Cada estrela tem o seu nome, em árabe, Alnitak, Alnilam e Mintaka. Estes nomes significam corda, pérola e cinto, que são elementos da constelação de Órion”. Se estamos a falar de escrita criativa, este é um belo exemplo de como se pode cativar um leitor com este misto de mistérios, presságios e fantasia. Outro belo momento literário desta obra.

E, finalmente, (finalmente apenas porque a ordem adoptada foi a alfabética), temos a participação de Vera Cymbrom, também autora da capa do livro, como já referi. Nasceu na Lagoa, no ano da graça de 1980, e é vendedora. Estudou na escola Secundária Antero de Quental, tendo frequentado durante dois anos a Universidade dos Açores, no curso de Matemática. Dedica-se à pintura, tendo exposto em 2010 “Pele D’Alma”, e à fotografia, tendo exposto em 2013 “Reminiscências” e em 2014 “Embriaguez de existir “. Participou na

mostra fotográfica do 10 Fest Azores. Gosta de jazz, de poesia e de viajar… Saliento aqui a força narrativa e dos diálogos do belo conto “Egoísmo”, tão real como nos tempos que passamos. Família, dor, abandonos e mentiras, tudo ali em poucas páginas e muito realismo: “Não vou ver o meu pai porque não consigo fingir que tenho 18 anos, bom, e agora, pelos vistos, tenho 9 anos. Não consigo fingir que tenho 18 anos só para não o alterar com a noção de tempo que ele não tem. E agora falar da mãe como se estivesse viva”. E a pergunta existencial: “— Quando acaba esse sofrimento que ressuscita a dor da perda?”

“Prosas às Quartas”! Li-o numa tarde! O muito que gostei pode ficar resumido assim: Temos escritoras! Assim elas o queiram. Parabéns a todas as participantes neste abraço grato à sua orientadora, Paula de Sousa Lima, por nos ter proporcionado esta leitura, com a certeza de que comungo inteiramente do seu pensamento, “estas mulheres que vos apresento têm, disso estou convicta, merecimento para serem aplaudidas. Não ficaria surpreendida se, em breve, surgissem obras com o nome delas na capa”.

Santos Narciso

publicado no jornal Atlântico Expresso no dia 10 de Julho de 2023

 

Comentários